Ao pó cósmico voltarás

Estou engessado, o corpo todo, dos pés à bebedeira e, por sorte, não há água.

Baratas comem gesso em pó e depois bebem água. Secam. Ratos também fazem isso, se o gesso vier misturado a parmesão ralado. Estátuas interiores, secando, morrendo, a pele se desfazendo, os órgãos, restará o gesso.

Estou engessado, o corpo todo, mas só por fora. Por azar, não há água. Água me livraria desse pó, calcário moído, penetrando poros e estranhas entranhas. Nunca serei estátua se continuar tomando três banhos diários.

De onde eles vêm, os ratos? Para onde elas vão, as baratas, depois que começa a solidificação? Deitam e esperam? Sentem o corpo seco, teso, estático? Deixe que deitem e esperem. A água evaporará.

Finos artistas terão a chance de esculpir uma vida, vida de rato, de barata, de gesso, de gente.

Comece agora com os carboidratos, não é isso? Oi, preciso da sua ajuda.

Você, sempre tão desidratada, amarga, tesa, estatica, você sempre tão barata, cuide de mim, esculpa-me, desculpe-me, em silêncio, concentração, esqueça as carnes da dançarina, esqueca os óculos tristes daquela que ruge: eu estou falando comigo? Hahaha.

Quem ficar no prédio terá um futuro mais feliz que esse. Se hoje é novembro, o calor, o aquecedor, uma mula, aquele amigo se faculdade. Precisou esperar o dobro.

Quem é esse cara? Compensa dar a ele uma bolsa de literatura se, anytime, pode virar estátua de gesso? Decide. Você será esculpido, como arte e como ciência.

Tragam os cinzeis, os melhores equipamentos conhecidos, e o exrtator de gesso. Agora não, aquele primeiro.

Os gritos, urros, me jogam pela porta do corredor, nos fundos, onde são descartados os restos de experiências, e lá estão sua representação gípsica interior, o rato, a barata, enfim.

Começa a chover.

As noites de cem gramas que vivemos a sonhar

Naquela noite, eu não tinha mais nada a conversar. Foi quando soube, ao pé do ouvido, que haviam matado o Cabra. Continuei impassível. Guardei o cigarro e o isqueiro no alforje, simulei um aceno de despedida para os companheiros e saí pela rua escura, cabisbaixo, pensando só na figura refletida na calçada molhada: calça jeans suja, no corpo há duas semanas, camisa amarela desbotada de manga curta e uma bic azul no bolso, o cabelo mal penteado, ensebado depois de um dia inteiro de trabalho na oficina, bigodinho bem aparado. Um dia comum, apesar de incongruente.

Risquei dois quarteirões até fazer ranger o velho portão de ferro, sem chave. Bati na porta duas vezes, e ela abriu, sem nem perguntar quem era, já sabia, mas deveria ter perguntado, por segurança. Ali nunca acontece nada, dizem, mas havia acontecido, eu sabia, mataram o Cabra, com faca, pra não fazer barulho. Era tarde, e a rua precisava dormir. Deixaria para saber dos detalhes de manhã, quando ela viesse me contar.

– Dingo, acorda. Dingo. Dingo! Mataram o cabra!
– Me deixa dormir.
– Dingo, é sério, mataram o Cabra na rua de cima. Você não ouviu nada?
– Antes ele do que eu.
– Dingo, levanta, você precisa fazer alguma coisa.
– Fazer o quê, mulher. Se mataram, ele já morreu, não tenho nada pra fazer.
– Levanta, Dingo, é teu irmão.

Esperava que ela me acordasse com os detalhes, se foi A ou B, pelo motivo C ou D, a mando de E ou F. Mas ela só sabia o essencial, tinham matado meu irmão, e achava que isso era suficiente para me tirar da cama.

Engoli um café preto com muito açúcar, vesti a calça, as chinelas e fui pra rua de cima para ver o presunto. Tava lá, o Cabra, esticado. Antigamente, alguém teria coberto o corpo com jornal. Hoje, ninguém mais lê jornal, o corpo fica às moscas até a Científica chegar. Nem uma vela. Ainda bem, porque ele detestava velas. Dizia que cheiravam a pena de galinha queimada. Olho para o corpo ensanguentado por uns segundos e sou reconhecido pela dona Quinha, que vem me dar um abraço, de cara chorosa, e murmurar qualquer coisa que nem ela entende. Me desembaraço da velha dizendo que vou botar uma camisa e volto para casa.

Acabo de me vestir, dou um beijo nas crianças, ainda na cama, belisco a bunda da Alzira e vou para o ponto de ônibus. O Cabra morreu, antes ele do que eu eu, mas o patrão deve estar bem vivo na oficina.

Chego no trabalho e a notícia já estava lá.

– Dingo, meus pêsames, soube que seu irmão morreu.
– Mataram ele.
– Tira o dia de folga, rapaz, vai lá cuidar da papelada.
– Não precisa, ele tem família. O Zero-onze precisa pegar estrada amanhã, é mais urgente.
– Está bem, se prefere assim… E vê se termina logo, porque já ligaram dizendo que o Dois-noventa vai chegar aí com o câmbio estourado.

Visto o macacão engraxado por cima da roupa e pego as ferramentas. Na primeira martelada, acerto o dedo. O Cabra morreu. Que merda.

Existem noites que são brutas, pesadas de ventos, de calor, de chuva, pensamentos tão incompletos quanto ligeiros e preocupantes.

– Zito, avisa o Barbosa que vou passar no posto, arrebentei o dedão.

Que se dane o dedão. Vou voltar para o corpo do meu irmão, se ainda estiver lá.

Estava, com muito mais gente em volta. Policiais tomando notas, policiais de braços cruzados, policiais contanto piadas. A Científica ainda não chegou, o corpo segue exposto. Fico de joelhos ao lado do Cabra, e um policial manda eu me levantar, eu ignoro, ele se afasta. Quem olha, pensa que estou rezando, orando, fazendo uma prece qualquer pela alma do defunto. Se alguém me ouvisse, talvez reprovasse o discurso.

– Cabra, seu filho da puta, agora vai pra junto do pai, vão os dois infernizar no inferno, vão mexer com o que é dos outros no reino do Satanás. Esta vila está mais leve, vai poder respirar ar puro de hoje de em diante, seu safado.

Para encerrar o teatro, faço o sinal do em nome do pai e me levanto devagar, quando uma bola acerta o nariz do morto. “Mal aí, tio”, diz o moleque que corre atrás da bola.

Passo em casa, enrolo uma gaze com esparadrapo no dedão e volto para o trabalho.

Não diga pra ninguém que me viu, só diga que tão triste ele partiu

E o Cony que morreu?

Era bacana achar que o Cony não era legal. Mas eu gostava dele. Acompanhei sua coluna na Folha desde que substituiu Otto Lara Resende, a quem também acompanhava. Li vários de seus romances. Um deles, sobre a Estrada de Ferro Leopoldina, dei de presente a um amigo que tinha histórias de família com a ferrovia. O amigo agradeceu comovido, mas confessou que não poderia ler: estava quase cego. Mico? Nada… não dá pra ler, mas ele continua acelerando seu Golzinho pelas ruas de Mauá. Cony escreveria uma bela crônica sobre ele, associando a algum fato dos seus tempos de coroinha.