Ainda sobre a segunda sem carne

Resposta ao comentário que diz “Daqui 50/100 anos todos vão exaltar essa lei como um raro gesto de sensatez do Estado brasileiro”:

Sim, ao que parece, é isso o que vai acontecer, e pode ser ótimo para a humanidade e para o planeta, tirando o fato de que espécies como bovinos e suínos desaparecerão sem a força da indústria frigorífica.

Há 40 anos, na minha infância, era comum jogar papéis de bala, embalagens de cigarro e latas de cerveja na rua. O Roberto Carlos até fez uma canção sobre chutar latas na rua. Hoje, pouca gente faz isso, e a mudança não aconteceu por nenhuma lei peremptória, mas por educação. Os professores começaram a conversar com as crianças sobre os inconvenientes da poluição urbana, e essas crianças cresceram com novos hábitos.

Esse é o caminho. Se parar de comer carne realmente vai ser um progresso, a solução está na orientação gradual das crianças.

Nenhuma proibição é válida, para nada.

Odeio cigarro, acho que deveria desaparecer do mundo, mas sou contra sua proibição. Proibir alguma coisa pressupõe um povo burro, despreparado para mudanças. Aliás, acho o cúmulo da ignorância gente que defende os animais e continua fumando, demonstrando desrespeito pelo próprio corpo e pela própria espécie. Ah, mas não é assim, é o vício… ora, que se tratem! Ah, mas é gostoso… novamente, que se tratem.

Proibir é arrogante, autoritário, e sou contra qualquer tipo de autoridade. Se meu vizinho quer fumar, tem todo o direito, desde que não encha minha casa de fumaça, como vinha fazendo há alguns meses e, depois de minha reclamação no Facebook, parou. Todos os humanos somos iguais. Nada, nem ninguém, está acima do ser humano; nenhum ser humano está acima de outro. Não obedeço leis – sigo o comportamento que considero correto, o que, muitas vezes, coincide com as leis.

A determinação legal serve aos medíocres, e os seres humanos são inteligentes, exceto quando se deixam levar pelas determinações de outros.

A proibição do consumo de carne às segundas-feiras em órgãos públicos do estado de São Paulo é uma idiotice que “vai pegar”. Mas ninguém tem o direito de dizer o que uma pessoa deve comer. Cada um come o que gosta e, por culpa do capitalismo, o que pode. Provavelmente, essa lei vai afetar pouca gente a princípio, mas tende a se expandir e ser levada para outros círculos.

O consumo de açúcar refinado deve acabar dentro de algumas décadas, mas isso não vai acontecer por um decreto que vete o refrigerante em determinado grupo. Vai acabar porque as pessoas estão aprendendo que ele causa danos à saúde e ao ambiente, graças à monocultura da cana e suas queimadas. O açúcar refinado deve desaparecer dos supermercados, mas quem quiser, ainda poderá encontrá-lo em lojas especializadas. Assim como acontece com os discos de vinil, derrubados não por campanhas educativas, mas pelo poder do mercado.

Não podemos aceitar proibições de qualquer natureza, muito menos uma que envolva hábitos e decisões particulares.

Essa idiotice de proibir a carne às segundas deveria ter sido lançada como uma campanha educacional. Aí sim, faria algum sentido, apesar de não haver comprovações científicas de que comer carne é um erro, como tenta nos convencer o artigo copiado em seu comentário.

O ser humano é onívoro. Isso pode mudar, claro, mas vai depender do ambiente e da necessidade, não de uma lei estúpida.

Se um vegano, vegetariano ou herbívoro vier jantar comigo, será bem recebido e comerá uma pizza de rúcula enquanto eu como uma de bacon. Se um evangélico vier me visitar, será bem recebido, e vamos conversar sobre muitos assuntos, exceto religião. Mas se alguém bater à minha porta para tentar me convencer a mudar hábitos alimentares ou (falta de) crenças, será convidado a mudar de tema. E se alguém me proibir de comer o que eu quiser ou de ser ateu, será ignorado.

Como diziam os estudantes parisienses em 1968, “Il est interdit d’interdire!”, frase mal traduzida por Caetano Veloso que continua fazendo sentido. É proibido proibir. Não às leis. Não ao governo. Sim às decisões conscientes.

Por isso, todo apoio às pessoas que não consomem carne, desde que não queiram tirar minha picanha do espeto. Um dia, posso vir a abrir mão do filé à parmegiana do Gato Que Ri, mas será porque terei mudado de ideia, e não por ter sido obrigado.

Segunda sem carne

Pessoa que não come carne = pessoa legal, que cuida da saúde e defende os animais

Pessoa que não come carne e tenta convencer os outros a não comer = pessoa chata

Pessoa que não come carne e obriga os outros a não comer = pessoa autoritária, egocêntrica e inconstitucional, como quem propôs e quem aprovou a lei que veta o consumo de carne em órgãos públicos do estado de São Paulo às segundas-feiras

Pular anúncio

Na TV, se eu não quero ver uma propaganda, posso mudar de canal ou até desligar o aparelho durante 30 segundos até que ela termine. No rádio, a mesma coisa. Na mídia impressa, posso virar a página e continuar a leitura. Mas nos vídeos da internet, sou obrigado a assisti-la durante quinze segundos antes de aparecer o botão “Pular o anúncio”.

É pouco tempo, um nadica que não vai atrasar minha vida, mas é um desrespeito sem tamanho.

Fio ou banana?

Fiz outra experiência com a Matilda. Ela é famosa por roer fios elétricos em casa e já causou diversos prejuízos financeiros por estragar equipamentos. Por sorte, ela ainda não caiu de boca num 220V ligado.

Nesta semana, me lembrei do denatônio. É a substância mais amarga do mundo, usada para desestimular o uso do álcool doméstico para a fabricação de bebidas. Um mililitro de denatônio em mil litros de álcool é o suficiente para deixar qualquer licor caseiro intragável.

Assim, a ideia é molhar os fios com álcool, para que o amargor do denatônio afaste deles a coelha.

Para saber se daria certo, fiz a experiência usando três pedaços de banana, um dos petiscos favoritos da Matilda. Dois pedaços estavam in natura; o terceiro foi espargido com álcool 46°. Se ela comesse, poderia ficar um pouco bêbada, mas não traria maiores complicações.

Tiro certeiro: os dois pedaços de banana limpos foram devorados em minutos. O pedaço com denatônio ficou quase intacto.

Resultado da experiência: Matilda não quer mais comer banana.

Mas o cabo do teclado de um micro que fica no chão amanheceu destruído.

Intolerância ao bate-estaca

Sofro de intolerância a música eletrônica: ela me causa uma alteração negativa no ritmo cardíaco, desorganiza as sinapses e eleva o nível de cortisol. Por isso, não ouço, e fujo de onde estiver tocando. O mais próximo de eletrônico que chego é Philip Glass, que nem é. Há exceções: algumas coisas de Kraftwerk e até o kitsch JM Jarre são ouvidas com prazer.

Mas não posso impor minhas preferências para todos, e resolvi, em nome da ciência, fazer uma experiência com a Matilda. Ela estava deitadona na gaiola, com a porta aberta, pensando num campo coberto de cenouras, quando troquei a MPB calminha que tocava no ambiente por um eletrônico básico, do tipo que (quase) todo mundo gosta. Na primeira batida de Chemical Brothers, ela tomou um susto, levantou as orelhas e ficou em alerta. Na segunda batida, saiu em disparada e se escondeu em algum lugar. Só reapareceu quando voltou a tocar MPB calminha: Luiz Tatit, Estrela Ruiz, Zeca Baleiro. Aí ela voltou a pensar no seu campo de cenouras, numas boas. Eu também.