Mero engano

Sabe aquele filme do Almodóvar em que você cantou a música da pomba?
Não me lembro se era o do ônibus ou o do basquete ou da avó, mas tinha uma travesti, se não me engano,
Queria rever, queria reouvir você cantando baixinho junto do Caetano, cucurucucu
Depois a gente tomou um vinho barato, mas de rolha, e foram duas garrafas, lembra?
Comprei no mercado duas garrafas da mesma marca esperando você chegar, de sacarrolhas na mão
Mas o interfone está mudo, e você não vem, eu sei, mas continuo a esperar no cantinho do sofá
Queria que você cochilasse no meu ombro de novo, deveria ter filmado, mas como? Sem saber que seria só uma vez
Você não volta, nada volta, mas espera, o interfone tocou, era uma pizza que não pedi, mero engano
Assim levo a espera, mero engano, você não volta, foi só uma vez, o vinho, o filme, a pomba, o ombro

Quarta e meia?

Você já deve ter visto a campanha da Claro divulgando uma nova tecnologia que permite conexões à internet até 10 vezes mais rápidas, chamada de 4.5G.

Acontece que esta tecnologia não existe. O que existe é 4G, quarta geração de telefonia móvel, que veio depois da terceira geração, 3G, e antes da quinta geração, 5G, que deve estar disponível nos próximos anos. Não existe uma quarta geração e meia.

Mas a Claro não está mentindo quando diz que aumentou a velocidade de conexão: o que a empresa fez foi juntar frequências ociosas para, simplificando, criar uma “estrada” com mais “faixas de rodagem”. Além disso, há um sistema de antenas que multiplica o sinal para aparelhos novos que tenham suporte a ele.

Assim, o assinante que tem um aparelho moderno e está numa área coberta por essas antenas e por essa “estrada” mais larga, poderá, realmente, ter uma conexão muito mais rápida.

Mas de onde saiu o 4.5G? É só uma marca, um nome comercial inventado para batizar essa junção de tecnologias.

Se eu tivesse mais conhecimento no assunto, poderia dizer que a letra G significa Gambiarra.

Pertences para feijoada

Eu tenho um de cada e nada mais
Daquilo que eu preciso, pra que mais?
Carrego tudo junto,
O mundo é tão pequeno

Um pé de sapato, uma mochila, um violino, uma calça rasgada no meio das pernas, uma bola de gude, uma camisa do América, um livro do Neruda, a lembrança de um abraço, um lenço, um lápis, o canivete do meu avô,

E assim eu vou, jogando damas nas praças do caminho, mascando o mesmo chiclete de ontem de hortelã.

Sozinho

Ao pó cósmico voltarás

Estou engessado, o corpo todo, dos pés à bebedeira e, por sorte, não há água.

Baratas comem gesso em pó e depois bebem água. Secam. Ratos também fazem isso, se o gesso vier misturado a parmesão ralado. Estátuas interiores, secando, morrendo, a pele se desfazendo, os órgãos, restará o gesso.

Estou engessado, o corpo todo, mas só por fora. Por azar, não há água. Água me livraria desse pó, calcário moído, penetrando poros e estranhas entranhas. Nunca serei estátua se continuar tomando três banhos diários.

De onde eles vêm, os ratos? Para onde elas vão, as baratas, depois que começa a solidificação? Deitam e esperam? Sentem o corpo seco, teso, estático? Deixe que deitem e esperem. A água evaporará.

Finos artistas terão a chance de esculpir uma vida, vida de rato, de barata, de gesso, de gente.

Comece agora com os carboidratos, não é isso? Oi, preciso da sua ajuda.

Você, sempre tão desidratada, amarga, tesa, estatica, você sempre tão barata, cuide de mim, esculpa-me, desculpe-me, em silêncio, concentração, esqueça as carnes da dançarina, esqueca os óculos tristes daquela que ruge: eu estou falando comigo? Hahaha.

Quem ficar no prédio terá um futuro mais feliz que esse. Se hoje é novembro, o calor, o aquecedor, uma mula, aquele amigo se faculdade. Precisou esperar o dobro.

Quem é esse cara? Compensa dar a ele uma bolsa de literatura se, anytime, pode virar estátua de gesso? Decide. Você será esculpido, como arte e como ciência.

Tragam os cinzeis, os melhores equipamentos conhecidos, e o exrtator de gesso. Agora não, aquele primeiro.

Os gritos, urros, me jogam pela porta do corredor, nos fundos, onde são descartados os restos de experiências, e lá estão sua representação gípsica interior, o rato, a barata, enfim.

Começa a chover.