Pacote de dor

Deixa a dor encaminhada para os dias de precisão e as noites de aluvião. Daquelas térmitas sangrentas que microferem a audição. Armazena, guarda toda a dor que puder, e deixa sempre à mão. Nunca se sabe quando bordará uma desilusão. Duas colherinhas devem bastar, a ver com o tanto de sofrimento e, se for o caso, usa todo o sortimento.

Eh, vaqueiro, teu canto é chorado pela dor atávica do sertão. Eh, boi. Espinho. Eh, boiada. Eh, multidão ruidenta. Tira o espinho do joelho sem chorar. Lambe o sangue que escorre pela canela. Se tua língua não alcançar, pede ao Dito, sempre por perto, perito nessas funções. Por isso seu cabelo é fogueado, de tanto lamber hemáceas.

Uma foto de dor guardada vale mais que um cheiro de dor. A vista da coisa ruim provoca riacho dosolhos e desafoga o peito. Carrega a foto no peito, embrulhada em plástico para o caso de enchente, ou pendura no pescoço um lacrimário com as últimas gotas derramadas, mesmo que antigas, nunca ressecam.

Deixa esse frasco ao alcance da mão para os dias de precisão e as noites de aluvião. Um gota, duas gotas, te farão infeliz para o restante da jornada. Se for o caso, vira de gole.

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