“Não sei” ou “não”?
Anna, como toda mocinha da época, trabalhava a semana toda em afazeres domésticos e, aos sábados, queria se divertir.
Diversão, no pequeno povoado, se resumia a um bailinho tocado a sanfona e violão no salão paroquial, sob os olhos atentos do cura.
O pai de Anna, porém, era um homem muito rígido e nada afeito a diversões, principalmente se envolvessem sua filha mais velha. A vida, para ele, era atender os fregueses no pequeno armazém da família de segunda a sábado e ir à missa aos domingos.
Num sábado à tarde, Anna disse para sua mãe, Antonia, que gostaria de ir ao baile daquela noite, onde esperava trocar olhares com um certo rapaz que vinha de outra cidade. As amigas lhe disseram que o nome do rapaz era Santo. Trabalhador da roça, imigrante espanhol como sua família, não havia nada de mais trocar olhares – e somente isso – com o elegante Santo.
Mas Anna não tinha coragem de pedir permissão ao pai para ir ao folguedo. Rogou à mãe que intercedesse por ela junto ao velho André Caparroz. E assim foi feito.
– André, Anna quiere ir al baile hoy. ¿Puede ella?
-(silêncio)
– No sé.
– Está bien.
E Antonia se apressou a dar as boas novas à filha:
– Ve, ve, pero vuelve antes de las diez.
– ¡Gracias mamá!
Lá foi ela arrumar seu vestido de sair, passar um pouco de pó-de-arroz e pingar duas gotas do perfume que sua mãe guardava na segunda gaveta da cômoda. Anna saiu às pressas, com medo de que o pai mudasse de ideia.
Meia hora depois, André Caparroz anda nervoso pela casa, de lá para cá, e pergunta a Antonia:
– ¿Dónde está Anna?
– Ella fue al baile. ¡Tú lo permitiste!
– No, no lo permití. Dije “no lo sé”, y cuando digo “no sé” ¡es porque és no!



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