O ex-morto

Um ex-morto atravessando a rua

Desdefuntei-me. Pronto. 

Senti-me incomodado pelo aperto dos braços, a posição das mãos e o nó da gravata. Meneei um pouco a cabeça, discretamente, e ergui o tronco. 

Estavam ao meu redor tia Socorro, que clamava em vão seu próprio nome, dois ou três cabras de coragem, não deu tempo de contar, que correram o que suas trêmulas pernas permitiram, um pastor e um ajudante de pastor, sei lá que nome tem, que começaram a gritar comigo como se fosse eu o responsável pela minha desmorte, falando nomes e ordens para que eu me deitasse novamente. Ora, se iria obedecê-los. 

Estava com a garganta seca e pedi, a quem me pudesse prover, uma branquinha, com a voz rouca de sede, que provou ao pastor e seu ajudante que eu era o próprio Satanás. Um moleque trouxe-me uma dose, tomei de um gole e estalei a língua. 

Pronto. Estava pronto a seguir nessa vida.  Sacudi o esqueleto, modo de dizer, para livrar-me das flores malcheirosas e dei outra mirada em volta a ver se havia sobrado alguém em meu velório: não havia viv’alma. Todos haviam zarpado rumo a seus afazeres e às praças de fofocas para relatar o que haviam presenciado. Se alguém quis saber o motivo de minha morte, deve ter perguntado a algum proficiente no assunto, não a mim, que dormi refastelado e acordei encaixotado.

Tudo o que me lembro é de ter ido à casa do prefeito, Dr. Raimundo, para uma celebração em homenagem a não-sei-quem. Eram seus atos públicos preferidos – ali, fazia campanhas, dava tapinhas nas costas, enaltecia alguém. Mas tudo era motivo para lambuzar os beiços de gordura de frango. Comia tal qual Dom João 6º.

Sai de meu velório e caminhei para casa, ainda tentando me desvencilhar da gravata, acessório imbecil.

Por volta das cinco da tarde, a cidade ainda digeria minha desmorte. Em cada esquina, grupos se formavam, uns repetindo “Vi com meus próprios olhos, levantou-se do caixão como se nada fosse!” e outros, mais desconfiados, teorizando que eu era um zumbi ou, pior, um agente do governo disfarçado para investigar os segredos dos coronéis.

Enquanto isso, em casa, eu tomava banho, para me livrar do odor das coroas de rosas, xenas e crisântemos, até que, já quase completamente vestido, tocou a campainha.

“Seu Severino, o prefeito, Dr. Raimundo, tem a honra de convidá-lo para o jantar em sua casa, hoje, às 19h, em celebração de sua (do senhor) vida”. Aceitei. 

Às quinze para as sete, eu estava me arrumando para o já sabido lauto jantar em casa do mandatário, quando tocaram a campainha novamente. Novamente, era o moleque. Estava incumbido de garantir minha presença. Esperou eu ajeitar o chapéu e me conduziu, como a uma dama, pelo braço, por três quadras, até o local da homenagem. Pelo jeito que me guiou, estava acostumado a orientar ébrios. Mas, naquele momento, eu estava mais sóbrio do que jamais estivera.

Fomos recebidos por dona Célia Jéssyca, primeira-dama, já entrada nos quarenta, já entrada nas cãs, que foi muito gentil e direcionou-me ao salão principal. Não sei o que fez ao moleque, mas ele demorou a reaparecer na história.

Frangos de todos os tipos e tamanhos, todas as decorações, assados inidentificáveis e tortas, pães, saladas e petiscos dominavam a mesa. Olhando em volta, deduzi que eu era o último a chegar – coisas do prefeito: deve ter convidado toda a sociedade local para chegar às 18h30, permitindo a mim uma entrada triunfal.

Fui ovacionado ao penetrar no salão. Acorri ao prefeito e abracei-o, ou melhor, ele me abraçou procurando um colarinho que servisse de guardanapo, e me saudou, com o melhor discurso possível a quem retorna da morte. Se é que eu havia morrido, tenho dúvidas disso.

E assim começou o dia de minha segunda vinda ao mundo, com um convite que ninguém em sã consciência recusaria, principalmente um morto recente como eu.

– Seu Severino! Que milagre o senhor conosco! — disse o prefeito, enquanto dava potentes tapinhas nas minhas costas. Não pude deixar de notar uma certa impaciência nos seus olhos miúdos. Na certa, ansioso por comida.

Sentei-me a um canto da mesa, um pouco de lado, para evitar dar de cara com os olhares mais afoitos. O jantar começou com a entrada de uma sopa de legumes.

– Então, seu Severino, conte-nos, como é o outro lado? — perguntou-me, de súbito, irmã Cecília, freira do convento da cidade vizinha – não que eu já não tenha uma ideia, pelas Sagradas Escrituras, mas gostaríamos de saber por seu ponto de vista.

– Bem, eu, é, quer dizer… Tratei de inventar um “outro lado” sem fugir muito do folclore local. Havia um túnel. Um túnel imenso e escuro. Eu sentia que flutuava por ele em vez de caminhar. Da metade, suponho, para lá, comecei a avistar um facho de luz tremeluzindo. Quanto mais eu flutuava, mais a luz se tornava nítida, até que, mesmo estando a um palmo do chão, tropecei em algo e acordei.

– Nossa Senhora! Que experiência magnífica! Completou a religiosa.

O farmacêutico, Dr. Juvenal, quis saber a temperatura do ambiente.

– Nem frio, nem quente. Era como se eu flutuasse em minha própria corrente sanguínea, mantendo os 36 graus de praxe.

– Incrível, surpreendeu-se o boticário.

– Senhor Severino, pode deixar de prosa. Essas perguntas não vão acabar nunca. Já provou o vinho? É de minha reserva particular. Cultivo as vinhas no Sul do país e as importo para cá, onde eu mesmo dou conta de pisá-las.

Provei o vinho e achei, talvez levado pelo sugestionamento, com um certo gostinho de chulé. 

– É uma maravilha de vinho, senhor prefeito! Vou até pedir uma segunda taça.

O pastor e seu ajudante, que também estavam por ali, disfarçaram e pegaram suas taças também.

E assim, taça após taça, entremeadas por uma ou outra pergunta intransigente, fui me embriagando. Nacos de frango engorduravam minha boca, assim como a do prefeito, e usava o vinho como detergente.

Desta vez, foi a dona da casa, dona Célia Jéssyca, quem quis saber mais sobre o lado das sombras. Já com o superego liberado pelo vinho, tão ruim e tão doce, resolvi deixar de lado as descrições simpáticas e partir para uma invenção um pouco maligna.

– Olhe, dona Célia Jéssyca, o outro lado é meio sem cor, viu? Sem gosto. E tem uma quietude que incomoda. Não sei se estava há muito por lá ou se voltei a tempo de dizer que prefiro uma boa branquinha do Zé!

Todos caíram no riso, e vi, de soslaio, o moleque da cachaça e da campainha se aproximar sutilmente do prefeito. Parecia insistente, e só saiu dali quando a autoridade máxima do município lhe depositou alguns trocados na mão.

O moleque foi se afastando enquanto os convivas ainda riam e faziam piadas sobre minha piada. Farto daquilo tudo, resolvi dar o fora. Segui os passos do moleque, passei à sua frente por uma porta lateral e cheguei à rua. Cruzei a avenida Getúlio Vargas cambaleando de bêbado.

O moleque chegou à rua logo atrás de mim, ainda a tempo de apanhar meu chapéu no asfalto, antes que fosse amassado por outro carro.

Eu, babando sangue, olhava o ônibus dos bóias frias se afastar. O motorista deve ter pensando que era uma nova lombada, bem em frente à casa do prefeito, fazia sentido.

Defuntei-me again.

E desta vez, estava pronto para ficar.

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