Novilíngua

– Volte amanhã, disse o doutor.
– A que horas? Balbuciei, como se ele pudesse me ouvir. Não podia, mas intuiu:
– Às oito. Vamos tentar desentortar esse seu arado.

Sozinha na cidade, sem poder pedir a alguém um trocado que pagasse a pensão de Sá Dica, arrisquei a sorte e fui até a hospedaria. Sá Dica me recebeu sorridente, e eu, amuada. Cerrei os dentes e expliquei por gestos que queria ficar. Ela não entendeu o motivo, mas me deu a chave do quarto três. No dia seguinte, planejei, acordaria bem cedo e fugiria sem pagar a conta.

Não deu certo. Quando acordei, já senti o cheiro do café coado, revelando que Sá Dica já estava de pé. Lavei o rosto, fui para a sala de refeições e, sem falar palavra, sem sorrir, tomei um gole de café quente. Recusei o pão com um gesto de cabeça.

Para que ninguém percebesse que eu estava fugindo, amarrei uns panos em minha trouxa e a deixei sobre a cama. Vesti a muda de roupa sobressalente por baixo do vestido amarelo e saí, como se fosse a um passeio. No banheiro público da praça, tirei o vestido amarelo e voltei ao consultório de azul. Nem o doutor perceberia a trama.

No consultório, bati à porta, e Sinésia me atendeu simpática e silenciosa, e apontou uma cadeira que fazia as vezes de sala de espera. Em poucos minutos, o doutor Consorte apareceu e fez sinal para que eu entrasse em sua sala. A única coisa que consegui pensar foi que ele achava que eu era surda, por nem dizer meu nome nem bom dia, assim como a secretária.

– Muito bem. Abra a boca. Mais… Um pouco mais, por favor.

Ele calçou uma luva branca que havia tirado de uma caixa de papelão e puxou gentilmente minha língua.

– Diga “ah”
– Mmmm
– Outra vez…
– Mmmm
– É, não vai ser fácil. O único jeito é fazer um transplante. Volte amanhã, às sete.

Minha situação se complicou. Não poderia aplicar o mesmo golpe na pensão. Resolvi que dormiria na rua. Passei o restante do dia andando pela pequena cidade, e devo ter parado em frente à vitrine da Casa Anglo-americana umas oito vezes.

Por fim, com o sol posto, me ajeitei num banco em frente à Matriz e ali adormeci.

Na quarta-feira, bem cedo, com o mesmo vestido azul, já todo amarrotado, fui ver o doutor Consorte. Ele me mostrou uma caixa de isopor e sorriu enquanto abria a tampa. Tomei um susto e quase dei um grito quando vi, entre cubos de gelo, uma cabeça de porco.

Sem pressa, o doutor tirou a cabeça do gelo, a depositou numa mesa de inox e pôs-se a extrair a língua do animal. Não sei dizer quanto tempo demorou ou se desmaiei. Só sei que abri os olhos com uma língua de porco na minha frente.

– Abra bem a boca. Isso…

Ele enfiou a língua em minha boca e, assustada, pensei que ele faria o implante sem anestesia, mas estava apenas conferindo o tamanho. Talhou a língua de porco no tamanho que achava que caberia em minha boca e pediu licença. Fiquei um tempão esperando até que o doutor voltasse, com bafo de cachaça e de cigarro.

Voltou a tomar a língua de porco nas mãos. Chamou a secretária e a posicionou ao lado de uma mesinha com rodas. Pediu para que eu me sentasse em outra cadeira, do tipo que eu já havia visto na barbearia, e retomou as instruções.

– Abra bem a boca. Isso… Não feche.

Fiz o que ele mandou e fiquei apertando a barra do vestido.

O doutor disse para Sinésia: “pinça”. E ela lhe entregou uma pinça. Disse: “grampos”, e Sinésia lhe entregou um par de presilhas de metal. Disse: “anestesia”, e ela passou para ele uma pequena seringa. Acho que desmaiei de novo.

Quando abri os olhos, o doutor puxava uma agulha de costura para fora de minha boca, com um longo fio cheio de baba pendurado.

– Estamos quase acabando. Pode continuar dormindo.

Dito e feito. Acordei deitada numa maca. O doutor, atrás de sua mesa, rabiscava uns papéis. Sinésia deve ter encerrado sua função extra de instrumentista e voltado para a recepção.

– Bom dia, moça. Descanse mais um pouco. Não tente falar nada.

Dessa vez, senti que dormi mais de duas horas. Acordei e já me sentei na maca. Doutor Consorte não estava na sala. Aos poucos, fui tentando mexer a língua, mas a sensação era de inchaço. Logo em seguida, o doutor chegou e me perguntou se estava tudo bem. Fiz sinal de positivo com a mão e continuei sentada. Ele pegou uma lupa na mesinha de instrumentos e sinalizou com a boca que era para eu abrir a minha.

– Aham, bom… Bom… Mexeu um pouco a minha nova língua com a lupa mesmo e concluiu:

– Muito bom. Agora, já pode tentar falar. Diga “arado”.

– Aaahaaahaaa

– Hmmm… Agora diga seu nome.

Mentalmente, eu respondi: “Sebastiana”, mas a cara do médico foi de espanto.

– De novo… Diga seu nome.

Enquanto eu pensava que estava falando “Sebastiana”, pude ouvir minha própria voz soltando um ruído assustador:

– Oinc! Oinc!

Publicar comentário