História de pescador

Pescador

Nasci numa pequena vila de pescadores a 150 km de Goiânia, e ali me criei. Não era fácil a lida de pescar sem mar.

Saíamos cedo, antes do Sol brilhar, levando redes e canoas, e só voltávamos para casa à noitinha. Nunca se viu um peixe.

Mas éramos fortes, obstinados, e saíamos todos os dias antes do Sol brilhar, de segunda a segunda, e só voltávamos à noitinha. Em minha família, meu pai, meu avô, meu bisavô, todos pescadores, nunca se viu um peixe, tirando o da lata de massa de tomate.

Vizinho, Marlon, rebelde, filho de Teodoro, neto de Sebastião, um dia afrontou a colônia dizendo que, para pescar, era preciso mar. Contrariado, saiu de rumo certo, iria para São Paulo, cidade que tem de tudo, na certa teria mar. Dois dias de ônibus, e Marlon estava no Tietê, cidade dos ônibus em tupi guarani. Andou alguns metros e tentou entrar num mar fétido que passava por ali, sendo salvo pelos bombeiros.

Sem casa, sem paradeiro, mas com língua, perguntou e perguntou até que descobriu que o caminho para o mar passava por Jabaquara, e lá se foi Marlon, feito tatu, cruzando São Paulo.

De Jabaquara, foi a Santos, e no alto da serra, avistando umas poças grandes de mar, se deu conta de que havia esquecido de trazer as redes.

Seguiu viagem e se dispôs a pescar com as mãos. Foi ao mar, enfim, e nele se meteu, calças arregaçadas.

Nem chegou a ver peixe, mas a sensação do sal molhado penetrando na pele fez com que relaxasse e dormisse, ali mesmo, à milanesa. Acordou com o Sol a brilhar, hora de sair para a labuta, e nem precisou caminhar mais que alguns passos. Tornou a meter-se no mar em busca de peixes, e tudo o que conseguiu foi uma sardinha que apareceu boiando, mortinha, na crista de uma onda rasteira. Pescou a sardinha morta com as mãos e empreendeu o caminho de volta.

Estava realizado. Havia pescado. Seria o primeiro da vila a voltar para casa com um peixe ao anoitecer. Antes rechaçado, Marlon chegou na vila como herói, fedendo, com uma sardinha podre no embornal e moscas como batedores de honra.

Fui cumprimentá-lo, dei os parabéns e voltei para casa para dormir, para, no dia seguinte, na hora do brilhante, sair com os companheiros em mais uma jornada de carregar redes pelo cerrado. Marlon nos acompanhou, quieto, e nunca mais falou em ver o mar.

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